quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ricardo Araújo Pereira

CL - Existem tantas nuances de riso. O riso de cócegas, o riso de gozo, o riso de cumplicidade, o riso irónico, o riso de alegria, o riso de quem tenta espantar tristezas. Aquilo que o Ricardo faz hoje, no âmbito do Gato Fedorento, que tipo de riso pretende provocar?
RAP - Se calhar sou pouco sofisticado, mas satisfaço-me com qualquer um. Não posso ser esquisito, porque o riso não abunda. Há até quem diga que já não existe. Foi agora editado em Portugal um livro («História do Riso e do Escárnio» de Georges Minois, Teorema) cujo autor defende que o riso morreu. E o Eça escreveu que o riso tinha morrido durante a sua infância, altura em que julga ter ouvido a última gargalhada genuína, e ele nasceu em 1845. Isto pode significar que o riso, depois de ter morrido há 150 anos, morreu agora outra vez. O que, curiosamente, dá vontade de rir.
CL – E o que provoca o riso dos outros em si?
RAP - Tenho dificuldade em nomear uma sensação melhor do que a de fazer rir os outros. O riso, se não é felicidade, imita muito bem.
CL – Sente que criou uma personagem “Ricardo”?
RAP - Não creio, mas a imprensa faz um esforço persistente para criar essa personagem. No aniversário do «Jornal de Letras» mandei para os meus antigos camaradas de redacção um cesto com flores, chocolates e champanhe. Um jornal descobriu que o tinha feito e isso foi o suficiente para escrever que eu sou um grande apreciador de champanhe. De então para cá, é raro o artigo que não mencione a minha especial, embora inexistente, predilecção por champanhe. Metade do que se diz sobre mim na imprensa é mentira, e a outra metade é desinteressante.
CL - Apesar do sucesso, parece manter uma certa sobriedade. Como é possível manter-se sóbrio com a embriaguez de se ser reconhecido na rua, ser-se citado, perceber que frases suas passaram a fazer parte das conversas das pessoas, das piadas entre amigos?
RAP - Tudo o que referiu, sendo embora lisonjeiro, não é particularmente inebriante. Além de que eu saio pouco de casa. E cá em casa ninguém me dá importância nenhuma.
CL - O Ricardo escreve mas também compõe personagens enquanto actor.
RAP - O essencial do que fazemos, no Gato Fedorento, é a escrita. Já éramos guionistas antes disto, e essa ainda é a nossa profissão. O facto de interpretarmos os textos que escrevemos sempre foi, e continua a ser, um acidente. Depois de ter escrito para Herman José e Maria Rueff, por exemplo, só se não tivesse vergonha é que eu diria de mim próprio que sou um actor. Portanto, somos apenas veículos que transmitem, o melhor que podem, o texto ao público.
CL - Permita-nos bisbilhotar um pouco as suas leituras.
RAP - Posso enumerar aqui meia dúzia de autores, mas estarei a deixar de fora outros igualmente importantes. Não será um exercício rigoroso, mas vamos a isso. Estrangeiros: Cervantes, Shakespeare, Molière, Sterne, Flaubert, Twain, Tchekhov, Lodge. Portugueses: Fernão Lopes, Camões, Vieira, Camilo, Eça, Mário de Carvalho.
Ufa!
CL – Tendo aceite o convite de entrevista para Círculo de Amigos termino com a inevitável pergunta: que livro do Círculo sugere aos nossos sócios?
RAP - Poesia 2001/2005 de Vasco Graça Moura. Ele é um grande poeta (ver, por exemplo, o testamento de vgm), um grande tradutor (ver o tigre de william blake), e tem o sentido de humor dos grandes escritores (ver o poema que se chama o decassílabo).


Infelizmente perdi de vista a fonte de onde extraí esta interessante entrevista. Se alguém quiser fazer o favor de ma fornecer agradeço muito, antecipadamente

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