Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus escritores preferidos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus escritores preferidos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

José Jorge Letria

José Jorge letria é jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor. Nasceu em cascais, em 1951. Foi distinguido com importantes prémios nacionais e internacionais.


Miguel Cunha, 5º A

quarta-feira, 4 de abril de 2012

REPOUSO

Esperança  também tão comoventemente exposta no conto " Repouso" onde o Joaquim Lomba que " quase não trabalhava" porque "ninguém o queria, nem a dias nem de empreitada." e que levava " uma existência negra[...]sozinho, sujo, coberto da sombra do medo e da desconfiança dalgumas léguas em redor"e " trazia estampada no rosto a ferocidade" que fazia correr " por todos um calafrio de pavor" , mas a quem " Mazombo, ensimesmado, a marca que sentia na cara dava [...] uma tristeza funda, de revolta esganada.” E em quem " Em certas horas, uma humanidade estuante, larga, generosa, que também nele morava, queria mostrar-se à luz do sol", sem que contudo lhe fosse dada qualquer oportunidade, pois " o primeiro a quem dava os bons dias cortava-lhe aquela onda fraternal em bocados"( como a fronteira entre a virtude e o defeito é afinal ténue!) e há aqui como que uma  génese do ódio, da raiva, naqueles a quem por vezes não resta  alternativa ao " vazio, um desespero sem remédio, um abandono maior do que o das pedras, prefigura[ndo-lhe][...] o inferno" . E também este é salvo pela corajosa inocência, pela bondade primordial representada pelo " garoto" "com nove anos " que defendia com "decisão" a sua " quimera" a cuja coragem o Joaquim Lomba se rendeu " comovido" murmurando " Chegou para mim" , contente por ser finalmente tratado como um igual...

Fronteira

Fronteira

A questão do dever e da fidelidade a princípios que , também de forma simplicíssima, é abordada em " Fronteira" onde o Robalo,  um" rapaz[ ...] do Minho , acostumado ao positivismo da sua terra" ,uma personagem que tão bem representa o  chamado " universal singular" , (o quase chavão usado a propósito de Miguel Torga que toda a gente, mesmo quem nunca leu uma linha sua, conhece), fica estupefacto porque a idiossincrasia de uma aldeia inteira entra em total contradição com a sua própria forma de estar e de pensar, herança  de tempos imemoriais, e que ele, por uma questão de princípio,  decide impor aos demais porque  " só ele marcha bem" . Por isso," Pelo ribeiro fora parecia um cão a guardar"e aqui, como no mundo do nosso dia a dia,quaisquer meios pareciam justificar os fins " Em quinze dias foram dois tiros no peito do Fagundes, um par de coronhadas no Albino, e ao Gaspar teve-o mesmo por um triz[...] a bala passou-lhe a menos de meio palmo das fontes." ( a paz  de todos, das sociedades, - ou de quem manda nas sociedades? - a justificar os crimes , as guerras..e lembro que este conto foi escrito e publicado em plena vigência do regime fascista!), e uma vez mais aqui Miguel Torga concede a salvação ao homem que vive na " fronteira" entre a civilização e a barbárie dando à civilização a vitória " porque o coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura"

O Alma Grande visto por José Pedro teixeira

O Alma Grande

Aos leitores mais severos, aos que buscam na leitura a Verdade, os fundamentos do universo, as razões para o sofrimento, ou eco do seu próprio sofrimento, aos leitores com pretensões mais filosóficas que buscam, quiçá, Deus, a quem interessam textos profundos, complexos, que exijam reflexão, por vezes até, um certo compromisso, também Miguel Torga   chama  para o círculo dos seus fiéis seguidores .
 Por toda a sua obra poética, nos seus " Diários",( onde o " Poeta , prosador" encontra " descanso[ para] as [suas] [...] angústias" " na letra redonda") ou  nos seus contos, sob a aparência de histórias simples, que qualquer criança pode compreender, perpassam perfeitos tratados de cariz filosófico que nos despertam a consciência para questões profundas, como a da eutanásia, por exemplo, que , de forma arrepiante , nos é apresentada n' "O Alma Grande", aquele " pai da morte" " Alto, mal encarado, de nariz adunco"com " cara seca [de] [...] abafador " que " passava guia ao moribundo" com " a tenaz das suas mãos e o peso do seu joelho"." impávido e silencioso" ( sinistro!) e que " Saía com uma paz no rosto[...] igual à que tinha deixado ao morto." Ou a questão do dever( que tanto me atormenta!) e da fidelidade a princípios ( quais princípios? Como estabelecer uma hierarquia de importâncias? Quem escolher? - O indivíduo ou a sociedade? ...)( a velhíssima questão tão bem abordada por Shakespeare)

Pintura de Amanda Greavette

Madalena

Quem não compreende e não se comove até às lágrimas com o drama vivido por Madalena? - Essa personagem,  como tantas outras em Miguel Torga, cuja grandeza consiste em, nas palavras de Milan Kundera,  "carrega[r] [admiravelmente] com o seu destino como Atlas carregava aos ombros a abóbada dos céus". Essa personagem indefesa, qual gazela, vítima do frio e interesseiro predador indiferente ao seu sofrimento. E quem não conhece esta natureza, toda ela feita de predadores e de vítimas, representada de forma inteira por Miguel Torga, com as suas forças benignas tão caras aos seres humanos, e com as suas forças malignas tão incompreensíveis, por vezes, tão injustificadas? -Esta natureza de que Madalena é parte integrante , com a qual ainda não rompeu laços, porque se encontra ainda no mais perfeito estado de inocência, que lhe serve de única companhia e testemunha da sua grandeza interior,( no fim afinal não somos só nós e o universo infindo?... ), e que com ela resiste estoicamente aos golpes fatais do destino que lhe coube em sorte, é apresentada  em perfeita sintonia com o seu sofrimento para que se não  sinta tão negligenciada! Por isso, enquanto ela sofria violentamente com as " guinadas" provocadas pelas dores do parto e com a sede insuportável que o esforço desumano lhe causava "As urzes torciam-se [com ela] à beira do caminho, [ como ela] estorricadas" .Em simultâneo, sem dar tréguas ,(como a própria vida), paralelamente, implacável, " Queimava. O sol amarelo..." " Parecia que o saibro duro do chão lançava baforadas de lume".

 Não faltava, a este quadro de forças antagónicas, neste mundo onde tudo acontece ao mesmo tempo, inexoravelmente, o lado mesquinho, obscuro, da natureza (também humana), do carrasco, muitas vezes nascido da fraqueza da vítima , (tipo humano muito querido do autor e tão generosamente apresentado n' O leproso), representado por " uma giesta miudinha,  negra, torrada do calor [ que] cobria de tristeza rasteira o descampado" ( votado à mais absoluta solidão!)

Também não faltava o seu lado arbitrário, simplesmente traidor e frio, de serpente despeitada por ter nascido para rastejar, e " Debaixo dos pés o cascalho soltava risadas escarninhas". E assim, " Ao tormento do cansaço e à crueldade das guinadas traiçoeiras que a anavalhavam quando menos esperava, juntara-se uma sede funda, grossa, que a reduzia inteira a uma fornalha de lume". Aos outros leitores, também hedonistas, que procuram no texto a fruição, um tipo de prazer menos imediato, mais profundo, que procuram a beleza da forma, a riqueza das imagens, a harmonia das frases, a melodia das palavras, Miguel Torga agrada inequivocamente, pois " deslumbra-lhes os sentidos" como também era sua pretensão, através de imagens belas, onde todos os cinco sentidos são estimulados de forma  impressionante.

Escolhi, este, poderia ter escolhido muitos outros para ilustrar um dos quadros de natureza existencial que nos é magistralmente pintado por Miguel Torga. Nele, a solidão humana parece gritar-nos que " A vida humana começa do outro lado do desespero", para que tomemos consciência de que "estamos absolutamente por nossa conta, [de que] temos liberdade total para escolher a nossa vida em cada momento, (estará o autor também certo de "que somos finitos e nada nos espera no fim da linha"?) O que parece , sem dúvida,  certo é de que " é deste mesmo desespero que partimos para sermos livres e responsáveis pelas nossas escolhas e pela nossa vida".

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre a (in)utilidade da ARTE

A aranha, aquela aranha era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs. E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções. Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.

- Não faço teias por instinto.
- Então faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que assenta as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim…
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro. - Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices a dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fazia vibrar a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova do seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera a memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

Mia Couto in O Fio Das Missangas

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Os Meus Escritores Preferidos

Miguel Torga
caricatura de Santiagu

Miguel Torga

"O meu perfil é duro como o perfil do mundo


Quem adivinha nele a graça da poesia?

Pedra talhada a pico e sofrimento,

É um muro hostil à volta do pomar.

Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto

Faz um poema doce e desejado;

Mas quem passa na rua

Nem sequer sonha que do outro lado

A paisagem da vida continua."

Mia Couto


Para quem ainda não conhece Mia Couto- o poeta que conta histórias- e a sua originalíssima obra, quem sabe, esta possa servir-lhe de estímulo:

A VELHA E A ARANHA

Deu-se em época onde o tempo nunca chegou. Está-se escrevendo, ainda por mostrar a redigida verdade. O tudo que foi, será que aconteceu? Começo na velha, sua enrugada caligrafia. Oculta de face, ela entretinha seus silêncios numa casinha tão pequena, tão mínima que se ouviam as paredes roçarem, umas de encontro às outras. O antigamente ali se arrumava. A poeira, madrugadora, competia com o cacimbo. A mulher só morava em seu assento, sem desperdiçar nem um gesto. Em ocasiões poucas, ela sacudia as moscas que lhe cobiçavam as feridas das pernas. Sentada, imovente, a mulher presenciava-se sonhar. Naquela inteira solidão, ela via seu filho regressando. Ele se dera às tropas, serviço de tiros.
- Esta noite chega Antoninho. Vem todo de farda, sacudu.
Para receber António ela aprontava o vestido mais a jeito de ser roupa. Azul-azulinho. O vestido saía da caixa para compor sua fantasia. Depois, em triste suspiro, a roupa da ilusão voltava aos guardos.
- Depressa-te Antoninho, a minha vida está-te à espera.
Mas era mais as esperas do que as horas. E o cansaço era sua única caricia. Ela adormecia-se, um leve sorriso meninando-lhe o rosto. E assim por nenhum diante. Desconhece-se a data, talvez nem tenha havido, mas num dos seus olhares demorados, a velha encontrou um brilho cintilando num canto do tecto. Era uma teia de aranha. Ali onde apenas o escuro fazia esquina, havia agora a alma de uma luz, flor em fundo de cinza. A velha levantou-se para mais olhar o achado. Não era a curiosidade que lhe puxava o movimento. Assustava-lhe a sua transparência demasiada. E, de logo, lhe surgiu a pergunta que luz tecera aquele bordado? Não podia ser obra de bicho. Não. Aquilo era trabalho para ser feito por espirito, criaturamente. A teia podia só ser um sinal, uma prova de promessa. Decidiu-se então a velha surpreender o autor da maravilha. A partir dessa tarde, seus olhos emboscaram o tempo, no degrau de cada minuto. Esquecida do sono e do sustento, não houve nunca sentinela mais atenta. Até que, certa vez, , se escutou um rumor quase arrependido, desses feitos para ser ouvido apenas pelos bichos caçadores. Por uma breve fresta se injanelava uma aranha. Era de um verde pequenino, quase singelo. Com vagaroso gesto a velha foi tirando o vestido do caixote. Usava os mais lentos gestos, fosse para o bicho não levar susto.
- Qualquer uma coisa vai acontecer!
Era suspeita que ela bem sabia. Confirmou-se quando as duas, mulher e aranha, se olharam de frente. E se entregaram em fundo entendimento, trocando muda conversa de mães. A velha sentiu o bicho pedia-lhe que ficasse quieta, tão quieta que talvez qualquer coisa pudesse acontecer. Então ela se fez exacta, intranseunte. As moscas, no sobrevoo das feridas, estranharam nem serem sacudidas. Foi quando passos de bota lhe entraram na escuta. Antoninho! A velha esmerava-se na sua imobilidade para que o regresso se completasse, fosse o avesso de um nascer. E lhe vieram as dores, iguais, as mesmas com que ele se havia arrancado da sua carne. Encontraram a velha em estado de retrato, ao dispor da poeira. Em todo o seu redor, envolvente, uma espessa teia. Era como um cacimbo, a memória de uma fumaragem. E a seu lado, sem que ninguém vislumbrasse entendimento, estava um par de botas negras, lustradas, sem gota de poeira.